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a viagem à praia do fim do mundo

Atualizado: 16 de Nov de 2020

- por bebê baumgarten -




prólogo

Estamos sentados ao sol, na varanda, mas não é um sol de verão, é um sol daqueles possíveis, com calor de outono, de ficar de olhos fechados por um tempo sem sentir aflição. Toca Let´s Dance, gravada em uma das listas feitas especialmente para levar à praia. Permanecemos em silêncio, uma ou outra conversa preguiçosa e sem importância. Gostamos de ficar assim. Em outro lampejo de lembrança sinto tua mão na minha cintura. Estamos dentro da casa. Talvez estejamos dançando. As fotos ficaram no teu celular. Não sei ao certo quando, como, nem por que.

antes

Largamos as mochilas no meio da sala e saímos sem mesmo abrir as janelas. Ruas vazias com típicas casinhas formando uma espécie de jogo de armar. Praias pré-fabricadas que não teriam nenhuma graça se não fosse o frio do inverno, o vento forte e o clima de fim de mundo. Na beira da praia, um deserto de areia, o mar lá longe, escuro e revolto. Gaivotas sobrevoando e parando aqui e ali para se alimentar. Logo que começamos a andar nos deparamos com carcaças de peixes, pinguins e até uma cabeça de golfinho, já comida por urubus ou outros predadores. Em todas elas, uma demarcação com tinta azul, que viemos saber mais tarde, era trabalho dos biólogos tentando entender e classificar as mortes dos animais e as marés.

Era um cenário estranho, mas mesmo assim, me sentia energizada e fazia pequenas corridas em círculos. Parei pra escrever meu nome bem grande na areia com um graveto que encontrei. Me senti menina e imaginei que tu talvez estivesse julgando minha meninice. Pensei sobre a passagem do tempo, em como nos enxergamos no espelho e agimos sempre da mesma forma, aos 12, aos 35 ou aos 50. Fazia frio naqueles dias. O sol da manhã e a atmosfera de praia não chegavam a criar um clima de verão, e, afinal, praias de fim de mundo combinam muito melhor com o inverno. Fizemos o longo e reto trajeto de volta até a casa por uma avenida com canteiro central, paralelepípedos pontudos e irregulares e casas fechadas. Uma perfeita maquete, ainda com os exuberantes jardins deixados pelos veranistas no último verão.

a dança

Lembro de estar de olhos fechados na varanda, acomodada em uma confortável poltrona de vime ao teu lado, um pouco porque estava um sol perfeito para fechar os olhos, em uma tarde deliciosa e uma casa acolhedora, na qual todas as viagens, idas e voltas seriam possíveis, mas também porque não sabia muito bem como agir, o que fazer. Mal nos conhecíamos e me sinto um pouco paralisada nesse tipo de situação. Deixei a vida andar.

Quando tu propôs um café eu não podia querer nada melhor. Estávamos na sala, em pé, conversando e tomando aquele café como se não houvesse cafés amanhã quando tu te aproximou, ficou muito perto de mim, parado, olho no olho. Percebi que teus olhos são muito mais claros do que eu lembrava. É bonito, pensei. Levantei a mão de leve e coloquei no teu peito. Precisava tocar. Encostei a cabeça ao lado da minha mão e fiquei ali ouvindo o teu barulho e o barulho ao redor. Tu me abraçou inteira. Ficamos assim por um tempo, abraçados, cafés esfriando. Foi aí que começou a tocar aquela música que te lembra do teu pai, uma música antiga de amor urgente com clima de boteco em fim de noite. Dançamos um pouco, sempre abraçados, com pequenas pausas pra olharmos um os olhos do outro. Talvez meus olhos também fossem mais claros do que imaginavas, não sei.

depois

Difícil saber assim, inebriada de gozo, o corpo ainda tremendo e aquela vontade inacreditável de chorar que vem com os bons orgasmos. Fico jogada na cama e deixo a brisa da tardinha me acalentar? Durmo um pouco agarrada em ti pra aplacar a intensidade desse dia e desse momento onde tudo é novo? Não, melhor cortar umas frutas e trazer pra cama, assim recarregamos as energias e nos conhecemos melhor. Nada é mais instigante que esse momento em que o outro é uma página em branco esperando nossos lápis pra desenhá-lo. E assim vamos começando a história, desenhando o que queremos, deixando de lado o que não combina com as cores que separamos. Te invento inteiro. Posso fazer isso, tenho essa licença poética. Te invento gostoso e sedutor. Não aquele tipo de homem que faz joguinhos bobos que no fim das contas só nos fazem perder tempo. Não, um homem curioso de mim, papo reto, cheio de tesão, com histórias e mais histórias pra contar e ouvidos e mais ouvidos pra ouvir, cheio de abraços para me dar.

Entra a noite e ainda estamos lá, ora sentados, ora deitados na cama, a brisa entrando pela janela lateral, os pássaros anunciando o fim do dia. A cada onda de vontades, transamos de novo e a atmosfera fica tomada por uma espécie de névoa, desejo em estado gasoso. O quarto é grande, como todas as peças da casa. Além da cama e da imensa janela quadrada que dá para os fundos da casa, tem uma pequena sacadinha com outras cadeiras de vime iguais as da varanda. De manhã saberemos se também é possível sentar ali e se deixar ficar ao sol adocicado do início do inverno depois de uma noite de conchinha e descobertas. A primeira folha em branco acorda psicodelicamente colorida.

o início

Fomos pegos de surpresa pela pandemia. Estávamos nos preparando pra iniciar o ano, retomar os trabalhos após as férias, recomeçar ensaios, oficinas, encontros, planejar as atividades, confraternizar com os amigos na volta do esvaziado verão da cidade. Nossas vidas estavam em suspenso e assim permaneceram. Por um momento lembrei a divertida brincadeira da ‘buzina paralisadora’ do Bloco da Laje, mas essa não tinha graça. Não se podia mais sair às ruas, não havia vida a viver lá fora. Eram dias e dias sem falar, sem ouvir alguém, sem contatos físicos, sem afetos, vivendo da forma mais inaceitável pra mim: pela tela do computador ou dos nossos brinquedos móveis e seus minúsculos visores de Led.

O mundo se esvaziava do lado de fora da porta. Ruas desertas, pessoas assustadas, covas abertas para acomodar os milhares de mortos, hospitais lotados, mais e mais moradores de rua ocupando as calçadas da cidade. Pouco a pouco, ainda perplexos, começamos a viver nesse novo lugar, dividindo nossa existência com uma humanidade estressada, raivosa, em pé de guerra. Eu tinha constantemente a sensação de estar num conto do Cortázar ou nas estranhas viagens do Ítalo Calvino e suas banhistas que, subitamente, estavam sem a parte inferior do traje de banho em meio a um agradável mergulho no Mediterrâneo, presas para sempre na água.

Foi assim que te conheci e abri a porta pra entrares na minha vida. Uma porta de brinquedo, irreal como a vida que raiava no horizonte dia após dia. Trocamos impressões sobre nossos anseios, perspectivas e aflições. Nos dias mais leves, poemas, canções, fotografias, humores, ironias. Fomos esculpindo um ao outro, nem sempre fiéis aos originais, mas sempre com as ferramentas da curiosidade e do desejo. As mensagens iam e vinham, sinais de fumaça, algum suspiro vislumbrado entre uma frase e outra, devolvidos no sopro de um vento. Nesses momentos eu me deixava ficar imersa em devaneios por um longo tempo, prevendo teus movimentos dentro da tua casa refúgio, analisando cada novo vídeo teu, te olhando demoradamente, imaginando como seria o teu beijo e o toque da tua mão no meu corpo. Me deixava boiar na superfície de um mar verde e tropical, inventado como os novos dias, as ondulações me provocando arrepios sob o corpo.

E os ciclos recomeçavam mais uma vez e se repetiam em looping: ocupar o tempo, trabalhar um pouco, escrever, refletir, ler, dormir, se exercitar, tocar instrumentos, comer, dançar, voar, se angustiar e sonhar. Lá fora, os dias iam pouco a pouco se tornando cinza, as folhas amarelando, o vento minuano cortando as alamedas da cidade vez ou outra anunciando os tempos frios.

encontro

Havia se passado muito tempo desde que ficamos ilhados em nossas casas com um vírus à espreita na calçada. Meu velho sobrado adquiriu um status de santuário onde mergulhei em memórias e revivi cada tempo/espaço. Em uma imensidão de dias fora do tempo, tua presença real ou inventada esteve comigo, andou comigo, dormiu comigo. Perdi a conta dos dias e noites em que te imaginei ao meu lado, em que nos beijamos e nos envolvemos em abraços. Amores difíceis. Abraços sem tato, beijos sem gosto, sexo sem cheiros. A pandemia nos tornara robôs e eu já não lembrava mais do arrepio do toque, do encontro de olhares antes do beijo que está na iminência de acontecer, aquela breve pausa, quase um suspiro que escapa do olhar.

Pensava nisso no trajeto e ondas de desejo e medo tomavam meu corpo. O trem balançava e me jogava de um lado a outro, num vaivém relaxante. Era minha primeira saída na rua desde que tudo acontecera e a claridade do dia, o azul do céu, as nuvens brancas como travesseiros novos tinham um brilho cinematográfico, mas a paisagem abaixo do céu era árida, com campos secos, queimadas, aldeias abandonadas, casas semidestruídas, um deserto sem fim. Ainda assim era poético e trazia conforto.

Estava habituada à solidão e o simples fato de estar com alguém, tocar em alguém, parecia de uma intimidade infinita e a expectativa desse momento me punha à flor da pele. A estação era também uma maquete, como a praia, e parecia de brinquedo, com seus bancos de madeira combinando com a porta, o prédio todo quadrado e limpo, datado, como em um filme americano com trilha do Ennio Morricone. O silêncio dali me fez lembrar uma incrível experiência ao desembarcar de um voo 737 na Ilha de Páscoa. No momento que o avião desligou as turbinas e desci na pista do aeroporto, avistei pessoas em trajes típicos e colares havaianos que vinham ao meu encontro me dar boas-vindas. Foi então que percebi o silêncio ensurdecedor. Nunca mais ouvi nada parecido. Mas na estação da praia havia essa sensação, embora o clima fosse bem diferente, com o inverno se aproximando no sul do Brasil e seus ventos começando a brincar com a areia no chão.

Estavas em pé ao lado do banco de madeira, mochila nas costas. Andei na tua direção. Não sabia o que fazer ou como agir: se devíamos nos abraçar, tirar as máscaras de proteção, sair livres pelas ruas. Mas não, simplesmente nos olhamos, eu peguei tua mão e saímos da estação, caminhando um pouco indecisos em direção a casa.

o meio

Tomamos o café na varanda da sala, aproveitando os raios de sol da manhã no friozinho de inverno. Falamos da pandemia, da solidão, do abandono e da falta de perspectivas para o futuro. Um novo mundo não é mais possível e os nossos sonhos, o sonho dos amigos, dos ativistas, das pessoas que ainda acreditam, se esvaem a cada dia, a cada nova onda de doença e pânico. Não há trabalho, não há dinheiro, não há comida para todos. Os ricos seguem ricos e no comando, cada dia mais hipócritas, mais patéticos, mais agressivos e ferozes. E nós, acuados, desorientados e com medo, começamos lentamente a disputar o pouco que resta.

O mundo está virando um arsenal de ódio e desalento. Falar disso nos deixa tristes e então conversamos um pouco sobre livros, arte, música e sobre o mundo que compartilhamos um dia, num recente passado que parece absurdamente distante. Ouvimos as músicas que separamos um para o outro nesse tempo em que estivemos isolados em nossas casas, unidos apenas por ondas magnéticas. Descobrimos verdadeiras belezas em nossas trocas de músicas, conversas e silêncios, e mais um pouco das nossas páginas vão ganhando relevos e cores.

Inventar um mundo, abrir suas portas e entrar contigo pela mão, saber que posso ter teus beijos, te olhar dormindo, te acordar cheia de desejo e depois apenas ficar deitada ao teu lado, ofegante e completa, me faz esquecer todo o resto. É nesse lugar, nessa casa com suas amplas janelas e os raios de sol da manhã, na cozinha americana e seus bancos altos onde sentamos pra cozinhar e tomar cafés, onde podemos dançar (já estou com meus sapatos vermelhos de ir) e ficar jogados nos sofás falando da vida, conhecendo as histórias um do outro, ou em confortáveis silêncios, que quero estar. Nessa casa refúgio, casa bunker, casa jardim. É nessa praia com sua beleza docemente feia, seus humores e seu mar escuro cor de chocolate, com pequenos eucaliptos arqueados de vento, suas ruas planejadas com casinhas de maquete e jardins floridos e seus paralelepípedos pontiagudos que fazem doer nossos pés nas havaianas, que eu quero mergulhar, mesmo no frio das tardes do inverno, até sentir na pele as mornas marés do verão. É aqui e agora que quero sentar na areia e olhar o mar imenso, escutar em silêncio seu rugido vigoroso. Entrar dentro do teu abraço quentinho e olhar o horizonte desse dia sem fim.

a água

Estou aflita. Há sombras na casa que passam descaradamente de um lado a outro, como se eu não estivesse ali. Tão atrevidas que chegam a entrar nos meus lençóis. Me debato, mudo de posição, as afugento. Ando pela casa com cuidado pra não tropeçar nos móveis. A sala está escura e vazia e não há mais a vida que havia de tarde. As amplas janelas estão cerradas. Ainda sinto o cheiro dos cafés do dia, do desejo gasoso no ar. Vislumbro o sexo no sofá, tão gostoso, tão furtivo. Teu cheiro impregnado em mim. Sorrio e esqueço por um segundo as sombras e os seres que me habitam. Penso que para onde vou, as sombras me acompanham, pois andaram o tempo todo comigo em minha casa, no isolamento. Já estou acostumada a elas, mas estranho que elas também aqui me sigam, nesse local sagrado, e que tenham viajado comigo no trem que me trouxe à praia. Será que tu também vês? Quero te acordar pra perguntar, mas dormes tão sereno, tão lindo, tua pele contrastando com o edredom branco. Busco água e começo a beber. Bebo sem parar. É tanta água que escapa pela minha boca e começa a se espalhar primeiro pela cama, depois pelo chão, até começar a inundar o quarto, a casa, a praia toda. Fico submersa, com os olhos abertos, vendo tudo ondulado. Te vejo sob a água, bem perto. Teus olhos estão abertos e percebo que eles são muito mais claros do que eu lembrava. É bonito, penso. Levanto a mão lentamente e tento colocar em teu peito, mas não alcanço. Apuro o ouvido pra ouvir os teus barulhos e o barulho ao redor, mas a água tapa meus ouvidos e só ouço o silêncio ensurdecedor da Ilha de Páscoa, que se transforma na estação. Depois o apito do trem, o balanço, o confortável vaivém.

Abro os olhos e fico quieta no escuro. Nem respiro. Tento lembrar cada detalhe da viagem, não perder nenhum suspiro, nenhuma sensação. Mas tudo me escapa, tudo é nublado, tudo se distancia e se cobre de névoa. Talvez olhando as fotos eu consiga lembrar. Mas as fotos ficaram no teu celular. Não sei ao certo quando, como, nem por que.



Bebê Baumgarten – inverno de 2020





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