• malu

le sac française - 4

Atualizado: Mar 29

da série a história de Johnny Skai

- por malu baumgarten -

Inclinou-se para a frente e pressionou o botão de acessibilidade na porta do shopping. Foi direto ao acesso lateral do Loblaws. A entrada principal do supermercado, na Yonge Street, estava fechada devido às medidas de emergência da cidade para conter a pandemia. Um único ponto de ingresso permitia aos funcionários do estabelecimento controlar o número de clientes e fazer com que o público limpasse as mãos com álcool gel.

As primeiras semanas depois do anúncio oficial haviam sido de incerteza para Johnny. A companheira temia que ele, com seu sistema imunológico comprometido pela esclerose múltipla, fosse presa fácil para o vírus, por isso fazia as compras a pé, no comércio local, e insistia para que ele ficasse em casa. O arranjo funcionou nos dias frios de março, e no abril chuvoso de primavera, mas a medida em que o clima esquentava, sua ânsia de sair crescia. Em meados de maio decidiu terminar o confinamento. Apesar dos protestos da mulher, armou-se de máscara e gel desinfetante e passou a fazer as compras da casa.

O mercado era pequeno e apertado. À saída de cada corredor era obrigado a colocar o scooter em marcha-a-ré, e o “bip, bip, bip” do carrinho ressoava nas imediações. “Pelo menos afasta essas pessoas sem máscara da minha volta”, pensava, com certo desconforto. Na seção de produtos vegetarianos, bem organizadas na prateleira mais alta, encontrou o que procurava, asas de galinha feitas à base de plantas, ou seja, sem galinha. Tentou erguer-se no scooter para alcançá-las, mas as pernas não ajudaram. À noite, tinha pouca energia. Tentou outra vez, perdeu o equilíbrio, quase virou o carrinho e sentiu os ossos da bunda magra a chocarem-se com violência no assento. “Damn it!” exclamou frustrado. Já se preparava para a terceira tentativa quando um sujeito que o observava ali perto ofereceu: “Posso ajudar?”, e sem esperar resposta, alcançou-lhe o objeto da cobiça. Johnny agradeceu, pegou a mercadoria e tentou sem sucesso acomodá-la na cestinha da frente do veículo, que transbordava. O homem sorriu e disse: “Parece que você precisa de uma sacola para suas compras.” Salvo pela segunda vez dos pequenos infortúnios diários, Johnny olhou seu salvador com mais atenção. Era um indivíduo comum, entre seus quarenta e cinquenta anos, de estatura média, o corpo apenas começando a mostrar uma barriga discreta, os cabelos castanhos todos ainda na cabeça, e olhos claros e amigáveis. Havia tirado do meio de seus pertences uma enorme bolsa de plástico verde, com estampa de árvores e pequenas pessoas e animais em meio a um paraíso idílico, e a frase “plus belle sera la terre” inscrita dos dois lados. “Toma esta, é francesa.” Johnny riu e quis saber de onde viera a exótica sacola. O sujeito explicou que até semanas atrás fora piloto da Air Canada, e viajara a Paris com frequência. “Mas agora perdi o emprego”, disse sem ressentimento. “Depois do vírus não há mais voos.” Riram os dois homens, unidos por uma amizade instantânea e fugaz, que cabia perfeitamente nas prateleiras do Loblaws.

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