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manhã

Atualizado: Jul 5

- por maíra baumgarten -


O amanhecer tardio de inverno revela o dia que guarda resquícios de um final de semana chuvoso e úmido. As ruas de Petrópolis estão geladas. Em céu de pálido azul, nuvens chegam e são levadas pelo vento. O sol se esconde por trás da massa cinzenta deixando antever apenas um brilho amarelo a prenunciar parco calor. Acelero o passo para afastar o frio que atravessa as roupas. As pernas de mais de sessenta anos relutam em obedecer a mente que voa.

Ao longe, por entre as ruas transversais, destaca-se o verdejar do Morro da Embratel com suas antenas e o casario branco e vermelho que sobe a devorar o verde e o castanho. A luz do sol aos poucos se liberta do cinza e surge no céu, agora coberto de carneirinhos.

O vento sopra nas esquinas e, gélido, sacode as copas das árvores, a chamar atenção para seus diversos tons e texturas. Um trator quebra o silêncio da manhã recém desperta, revelando o solo avermelhado a surgir em meio aos escombros cinzentos da casa destruída.

O bairro se transforma a pouco e pouco, e, das antigas casas demolidas, surgem espigões áridos, a esconder a luz e o calor e impedir a passagem do vento.

Na praça, vazia de crianças, destaca-se a árvore anciã com galhos que dominam o espaço ao redor. Marrom e tons de verde atravessam o olhar dos passantes ressaltando o encarnado e o amarelo dos balanços abandonados e tristonhos. Um homem caminha com o cão que dá saltos, corre feliz e aprecia a liberdade. Não há setor da praça que escape ao seu focinho entusiasmado.

O grasnar forte chama a atenção para o condomínio de caturritas construído em um alto pinheiro no pátio de uma escolinha infantil. As coloridas aves, atarefadas em seus ninhos, lançam gritos agudos e rascantes em conversas intermináveis e voam aos bandos em busca de alimento e galhos.

Além das cores que se fazem mais brilhantes com o sol que se estabeleceu no claro céu de inverno, o aroma forte de lenha ao fogo se espalha pelas ruas, aquece as memórias e chama para casa.

Inicio o dia de trabalho ao computador. A minha frente a paisagem urbana pontilhada pelo vermelho dos telhados, e pelo cinzento dos prédios se agita com o vento que sacode as árvores e leva a fumaça das chaminés. Meu olhar se perde nas nuvens que correm no céu. Os carneirinhos brancos transformaram-se em seres mitológicos de vários tons de cinza, que se perseguem e se escondem por trás do morro, prontos para devorar as antenas e, quem sabe o mundo.



texto © Maíra Baumgarten

foto © Malu Baumgarten

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