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monólogo da ravina

Atualizado: Jan 26


- por malu baumgarten -


A trilha da ravina está gelada, escorrego a cada passo, e os sobressaltos me fazem disparar o coração, tenho medo de cair nesse solo frio e duro, sinto as mãos geladas dentro das luvas e uma dorzinha funda que não posso definir, estou triste e penso, a sensação é física, é hormônio ou falta de, o excesso de cafeína esta manhã, o medo do ocaso, palavrinha mais metida mas o sentimento é verdadeiro, não há mais tempo, tudo já foi, e o futuro, que futuro, amiga? Na rua os postes anunciam, o gato Oliver, idoso, 12 anos de idade, de tamanho médio e pelo curto malhado está perdido, por favor chame a Linda caso o veja, foi visto pela última vez na esquina das ruas Glengowan e Yonge, há tanta ravina, tanto mato por aí, onde andará o Oliver esse bichinho bonito e majestoso de focinho branco, será que alguém o levou, foi comido por um coiote, morreu debaixo das rodas de um carro? Perdi minhas gatas e outros bichos também ao longo da vida, porque as pessoas querem animais se não sabem cuidar, se mal podem cuidar de si mesmas! A mãe gostava de um bom ditado, aprendi milhares deles com ela, e depois tive que aprender tudo de novo em inglês, porque as expressões idiomáticas são específicas da língua, mas há um jeito de dizer nesta língua bárbara que de boas intenções o inferno está cheio, o meu com certeza está. Tenho pena da Linda, e mais ainda do Oliver, que pode estar por aí faminto, um pobre gato velho e mimado, por que fugiu? Eu fugi também, e vim parar do outro lado do mundo, imigrante estrangeira, extraviada, não há mais casa, perdi a mãe e o caminho de volta, a filha não é mais minha, a juventude ficou pra lá, a minha, isto é, que a beleza da menina é incontestável, quem há de me achar agora, gata velha cansada de vagar no frio, só os verdes olhos felinos me ficaram, raiados de amarelo como os da mãe, ah, os abraços dela, as bochechas macias e as palavras sempre certas, o mundo que ela me mostrou e eu não pesquei, bobona achei que era meu, que era dona do verbo e da glória, que tudo lá ficaria, imutável esperando que eu me fizesse vitoriosa para então voltar ao calor dela.

A floresta é no meio da cidade e dentro de mim, é para ela que fujo hoje quando todos os filmes contam a mesma história e a tela do telefone me rouba o prazer dos livros, e caminho sem sorrir entre gente assustada, assustada eu, que descobri a mortalidade assim de pronto, me bate o coração noite afora e já não durmo, não me aquece o calor das cobertas, o gato Oliver está perdido e quando a neve cai penso nas pessoas em barracas nos parques, debaixo de marquises, no mato à beira do Rio Don, se aglomerando em abrigos onde a contaminação as espera, e a polícia matando gente negra, aqui e no Brasil, e o povo americano espera que seu novo presidente não seja igual ao velho, ano novo vida nova, Obama levou adiante a agenda de Bush, fechará o Biden os campos de concentração de crianças latinas do Trump? É o que veremos, verei, olhando para o futuro sem considerar o passado, porque meu passado deixei lá, e deixei a mãe, a glória e a palavra, o verbo que sempre quis conquistar, no princípio era, no princípio era eu, e agora sou o quê, gata velha arrastando os pés na trilha gelada da ravina e sem lugar pra viver e morrer que não seja essa floresta.

© 2020 Texto e fotografia - Malu Baumgarten


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