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macho mágico

- por bebê baumgarten -


Assim como o macho palestrinha, aquele que dá as diretrizes de como devemos nos comportar e palpites sobre qualquer assunto, desde nossa profissão até os cuidados com a pele, gravidez, forma física, depilação, o macho mágico é um sucesso consolidado na estrutura do machismo. Ele é a versão moderna do famoso tio que foi comprar cigarros e nunca mais voltou, deixando a mulher com cinco filhos em casa, todos à própria sorte. O macho mágico é aquele que desaparece, assim, do nada. Não raras vezes deixa sua interlocutora - esposa, amiga, companheira, amante ou o que quer que seja - falando sozinha e some por horas, dias e até meses, ressurgindo depois como uma aparição, de forma performática, pra causar maior impacto. O mais curioso desse comportamento, é que o macho mágico - que pode ser do tipo comum ou esquerdomacho antifascista e antirracista - não escolhe duração e importância de relacionamento pra fazer seu número. Tanto faz se é casamento, amor arrebatador, encontro casual ou mesmo sexo entre amigos. Vale tudo na hora da mise-en-scène.

Reflito sobre esse comportamento, pois me interessa bastante a natureza humana quando associada à ficção científica, e porque sempre me surpreende o fato do macho não se constranger em hipótese alguma com sua atitude, que até para os meninos de 14 anos, idade em que os hormônios estão saindo pelas orelhas e confundindo as coisas no cérebro, não seria adequada. Não, ele acha normal, inclusive calcula o impacto e se orgulha do seu sumiço. Tem até regra, tipo, sumiço de dois ou três dias tem um significado e sumiço de dez ou mais tem outro. Tudo muito subjetivo, óbvio, afinal, estamos falando de sentimentos. Fato é que essa vocação pra passar vergonha é corroborada por outros machos e exaltada de forma bem humorada em churrascos, botecos e grupos de WhatsApp. E não raras vezes sua performance é aceita pelas mulheres.

É curioso que justamente o gênero ‘dominante’, o inteligente e esperto homem, com os melhores empregos e salários, os espaços mais nobres na sociedade, os primeiros em tudo muito antes da chegada do homem à lua, ainda ache normal deixar sua interlocutora falando sozinha. O que além de uma tremenda falta de educação, se assemelha a um fenômeno paranormal. É como se, num encontro no baile ou no restaurante, no meio da conversa, o macho mágico virasse as costas e puf, sumisse no ar.

Reza a lenda que quando os machos mágicos e os machos palestrinhas se reúnem, comentam sobre as mulheres ‘sincericidas’, a versão moderna daquela tia que disse umas verdades e chamou na chincha o tio do cigarro quando, anos mais tarde, já com os filhos dele criados e na faculdade, o encontrou na padaria do bairro vizinho.






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