• bebê

pra não esquecer


- por clarice müller


1- Março/2020 em diante

O bicho tá pegando. Começou manso, atacando gente fraca, tipo velhos. Normal, gripe também faz isso. Mas aí o bicho ganhou força e foi pra cima de todos, nem a gurizada se safou. Se foram também. Montes de gentes pifando, entubando, morrendo. Coisa triste de se ver. Mesmo assim, não odiei o bicho. Ele só cumpre sua natureza, é o que tem que ser. A gente é que é bicho burro. Não reconhece a própria natureza, apela pra ignorância, se ferra. Também muy triste de se ver.


2- Abril/2021

E assim, de tristeza em tristeza, vamos acumulando covas. A das pessoas dói bastante, a dos pets murcha a alegria, a dos abraços tira o gosto, a da solidão enlouquece, a da dança paralisa, a do sexo seca, a dos amigos afunda, a de viajar nos divide: interior periga, exterior bloqueia, e mesmo assim, e com tudo isso e tanto tempo pra pensar e tomar atitude e se comportar melhor com os outros e nossa casa, mesmo assim a gente, nós, espécie, humanidade, trastes ou o que quer que seja, nessa soma das horas e das covas pelo caminho, a gente continua – e até aumenta, aperfeiçoa o que já é ruim –fazendo merda, em quantidade tão grande e mal cheirosa que torna irrespirável a vida no planeta terra, esse esgoto a céu aberto que criamos dia a dia, estúpidos que somos.


3- 19/03/2020

Eu havia acabado de voltar de Garopaba, onde passei dez dias maravilhosas com gente idem, quando a notícia estourou e deixou todos paralisados, mas quarentenas passam rápido, qual o problema?


4- 28/04/2021

Treze meses depois e estou escrevendo da casa/retiro onde me encontro há cinco meses, ainda em quarentena. Fui a Porto Alegre duas vezes nesse período, permaneci não mais que dois ou três dias e voltei correndo para esta casa de praia pintada com as cores de Frida Kahlo, onde cada canto da casa e de seu jardim tem a marca do trabalho e dos cuidados de minha irmã caçula, que morreu desejando estar aqui. Me dei conta então que o apartamento da rua Dom Pedro II onde resido há três décadas, que tem sido o depositário de meus livros, discos, quadros, meu guardião de memórias, o lugar que me fazia sentir em casa a cada regresso de viagem, não ocupa mais este espaço dentro de mim. Minha alma não se reconhece mais lá. Minha alma mudou de casa.


5- Antes de 2020

No apartamento térreo fundos, com vista para os fundos de outro edifício semelhante, pouco sol e pouco céu, acordar cedo era pedir pra mudar de lado e seguir dormindo. As manhãs, ali, nascem para ser ignoradas.


6- A partir de 2016

Como ignorar as manhãs num lugar onde o som do mar e das casuarinas ao lado das dunas se soma ao dos passarinhos que cantam em frente à minha janela, ornada por buganvílias de um lado e jasmim do outro? Onde tomo meu café na varanda, para depois me banhar de sol no banco sob a amendoeira?


7- 30/04/2021

Minha alma fez sua escolha e faço dela minha também. Se as viagens pelo mundo não me fazem mais sonhar, o mar ainda faz. E é em frente a ele e a seu incansável movimento, que entoo meu lamento pelo que se perdeu e celebro o que pulsa e permanece. Nada como mudar de casa, diz a alma, em paz.


8- Maio/2021

Crise de consciência: me sentir bem me faz mal. Não pode. Tem muita gente morrendo, famílias inteiras. Tem muita gente sem emprego, famílias inteiras. Tem famílias inteiras em tudo que está quebrando e sumindo. Então não pode. Sossega esse bem estar, esses cafezinhos no jardim, as buganvílias e os passarinhos ornando tua janela. Lembra dos que estão sofrendo. Lembra de ti mesma, há pouco tempo, partida de dor. Não dá pra esquecer. Mas que dá vontade de cantar quando o belo e o bom te acontecem, isso dá. E tá dando. Agora. Me deixa cantar, deixa. Só um pouquinho. Só pra não esquecer como é.


* foto de bebê baumgarten


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