• malu

no fundo

- por malu baumgarten


Lá no fundo há um navio cheio de tesouros e ossos esbranquiçados

de homens cuja carne há muito foi comida pelos peixes ou arrastada pelas correntes.

Os peixes não comem ouro e o sol está distante para brilhar nas moedas amarelas.

Debaixo d'água, o tesouro vale tanto quanto lixo.

Minha mãe também mora embaixo d'água,

e para vê-la vou ao mar e viajo em uma vagoneta que anda cinco quilômetros

sobre os molhes, impelida aqui pelo vento em suas velas, ali pela força dos músculos de homens bronzeados que a empurram sobre os trilhos.

Bem no final das ondas está o alto mar do Rio Grande, e lá posso ver minha mãe,

falar com ela e ser ela também.

O Atlântico abraça os molhes, e barcos grandes e pequenos vivem neste mar. Vistas

de longe, as enormes estruturas do Super Porto são menos ameaçadoras, uma feiúra simples e patética rodeada pela beleza do mar. Ao longo dos trilhos, cães famintos e doentes mostram seus olhos tristes, fracos para correr atrás de restos de comida. Os molhes acabam dentro do mar que guarda minha mãe, e dali vejo a longa, longa faixa de areia, a maior praia do mundo, dizem.

Sei que minha mãe vive no fundo, porque eu mesma, junto com minhas irmãs, a deitei ali.

Suas cinzas e canções nós espalhamos na água e sobre as rochas, e a água veio lamber as

rochas. Eu a depositei no mar que ela amou, para que virasse ave marinha ou tartaruga atlântica (vi a tartaruga emergir de sob o sol que divide as águas, onde caíram suas cinzas.)

Vou às águas ver a tartaruga e contar-lhe a minha alegria e a minha dor.

Lá no fundo há um navio com tesouro e ossos brancos, mas eu só vou pela tartaruga.

Minha mãe não tem ossos e tartarugas não comem ouro. Debaixo d'água, o tesouro vale tanto quanto lixo, e as verdadeiras joias jazem na luz do sol que divide as águas.

No alto do seu mar,

vejo minha mãe, converso com ela, canto suas canções e me faço ela.

Um dia vou morar naquele mar,

e meu corpo será outra vez um com o dela, e serei a tartaruga.

Lá, sob as águas geladas do Atlântico, que lambem as longas areias do mar do Rio Grande.



Poema ©Malu Baumgarten, escrito em 2011, traduzido para o português em 2021

Fotos: nos molhes ©Malu Baumgarten, 2007

vestindos as cinzas dela: arquivo pessoal de Malu Baumgarten

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