• malu

o sol do frio

Atualizado: 22 de Out de 2020

- por maíra baumgarten -

da série isolada, memórias e cotidiano



Domingo, início de abril, muito cedo da manhã, saio a caminhar pelas ruas vazias de um porto triste e sem navios. A pandemia cresce e é preciso evitar contato social, por isso vou enquanto a cidade dorme. Caminho nas ruas ensombrecidas pelas árvores do baixo Petrópolis em direção ao Jardim Botânico. O sol que se infiltra das árvores me aquece como só o sol dos dias frios é capaz. A cálida sensação me conforta e me faz seguir adiante. Inicio uma crônica em minha cabeça inquieta e errante.

Caminho obsessivamente, meu coração precisa circular o sangue enregelado com as imagens da pandemia, com a visão dos mortos, dos doentes e dos espíritos rasos e miseráveis que colocam à frente da vida das pessoas e de seu sofrimento, sua própria ignorância atrevida. Terraplanistas que não percebem que logo estarão a cair do abismo do fim da terra. E pior, como não acreditam na ciência e em suas leis, nem entenderão o porquê da queda.

Pássaros pipilam e voam em rasantes felizes e frenéticos. Eles estão livres e seguros, pois nós humanos estamos presos em nossas casas, nossas vidas isoladas que vão pouco a pouco se esvaindo em inutilidades. Vidas carentes de afeto, do toque, do abraço caloroso que nos faz lembrar o quanto dependemos dos outros e também o quanto as artes, o cinema, a literatura e a música são fundamentais para nossa capacidade de resistir sem enlouquecer.

A música na minha cabeça é imaginária, já que nesses dias não dá para sair na rua com telefone. Ouço, internamente, os acordes das belas melodias dos nossos compositores, cantores, instrumentistas, calados pela pandemia, confinados a suas janelas, sem palcos nem bares, quase sem voz e sem ganha pão. Como sobreviver nesses tempos? Levanto a cabeça e estou em frente a uma locadora de vídeo (uma das raridades que ainda ousa sobreviver aos serviços de streaming, possivelmente mais por teimosia do que por realmente sustentar-se). Portas fechadas: isolamento social. Penso em todos aqueles que deixaram de ter como ganhar sua vida (mas pelo menos ainda têm vida) e me pergunto para onde vamos.

Sigo meu caminho e, subitamente, estou novamente em Petrópolis. Passo pela casa dos Verissimo e penso em como estarão neste escuro momento. Relembro de um sonho que tive com o Érico ainda adolescente. Conversávamos sobre o Continente e seus personagens, e eu estava feliz demais porque ele era um dos meus ídolos e, além disso, debater com o autor de “O Tempo e o Vento” era algo maravilhosamente impossível para a adolescente tímida que morava na Medianeira, na casa das 7 mulheres - três irmãs, mãe, tia, prima, avó - estudava no Inácio Montanha e devorava livros desde quando lembrava de saber ler. A literatura era minha forma de sair daquele específico isolamento de infância e adolescência. Era também meu refúgio das injustiças, de uma sociedade oprimida por uma ditadura militar, do moralismo que condenava mulheres que moravam sós, das dificuldades financeiras da pequena família.

Penso em minha mãe, na pessoa solar e maravilhosa que ela era e em como foi importante para nós tê-la e dela receber não só a vida, mas os ensinamentos de como vivê-la, a empatia, a solidariedade, a busca da justiça e da igualdade social, o sentido de que as diferenças são essenciais e devem ser respeitadas e que cada ser vivo importa! Chego a casa com sua imagem, ela me acalenta e embala. 



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