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tempo de medo

Atualizado: 18 de Nov de 2020

- por maíra baumgarten -

da série: isolada, memórias e cotidiano


Dormir está difícil. Quando o sono vem, não repara. Acordo cansada da cama, dos sonhos, da impossível situação em que vivemos. Uma pandemia em um país pobre com um Estado debilitado pelos repetidos ataques de um governante cujas medidas e atitudes só pioram o quadro geral, já desesperador. Cenas de racismo, violência e misoginia, de fanáticos apoiando retrocessos sociais e insanidades diversas noticiadas pelos meios de comunicação e presentes nas redes sociais. As pessoas ou estão apáticas e deprimidas ou frenéticas contra o isolamento, pois não compreendem as reais consequências do seu final antecipado. Aliás, não compreender - ou não querer compreender - é uma característica desse momento.

A apatia e a sensação de impotência me levam de volta ao tempo em que estávamos subjugados pelo golpe civil-militar e pelo Ato Institucional 5. Eu era então uma criança que se transformaria em adolescente durante esses tristes anos. Tinha medo de tudo. Medo de passar fome, de ficar sem minha mãe — quando ela contava as histórias de pessoas presas por terem livros ou por se manifestarem contra a ditadura — de acabar morando embaixo da ponte como via nas cenas urbanas tão presentes em nosso cotidiano.

Os anos em que vivemos na Rua da República foram difíceis e solitários e a menina que eu era brincava de ser defensora dos fracos e oprimidos, resultado de conversas familiares e da literatura romântica ou de capa e espada. Minha melhor amiga na escola era muito pobre, vivia na travessa dos Venezianos. Era filha de sapateiro e constantemente atormentada pelos colegas. Eu sempre a deixava em casa antes de ir para a minha.

Quase não tenho memórias desta época. Não tínhamos televisão e, talvez por isso, ficava muito feliz quando ia à casa de parentes para ver algum episódio da série “Perdidos no Espaço”. Tão pesada era a realidade que os livros e programas de TV eram mágicos e me retiravam do momento difícil, transportando-me para outros tempos mais amenos, de ilusão e aventuras. Gostava do sentido de honra e cavalheirismo das histórias de capa e espada tipo Alexandre Dumas ou de histórias como Robin Hood, que resolviam problemas sociais ou dramas no futuro em outro momento e espaço, tal como Júlio Verne ou a série espacial tão famosa nos 60.

Naqueles anos estava em gestação uma brutal agressão ao livre pensar, à universidade, aos intelectuais e aos livros. Tão parecido com o nosso momento. Enquanto no mundo os jovens saiam às ruas para protestar e pedir liberdade, no Brasil se instituía o AI 5, se cassavam as garantias individuais, colocava-se na mão do presidente não eleito pelo povo todo o poder. A política transmudava-se em algo ruim e não desejável e se buscava a despolitização de todas as dimensões da vida. Tudo que de alguma forma se associasse a política era visto como ruim, impuro, perigoso. E a palavra de ordem era ser alienado. Ler era um pecado capital.

Era também uma situação muito difícil para quem pertencia a uma família ligada aos livros, aos ideias de justiça social e que apesar — ou por causa — das dificuldades financeiras e necessidades de ambos os lados gerou intelectuais, pessoas para quem refletir, fazer crítica política, acompanhar os acontecimentos e agir para mudar injustiças era como respirar.

A menina então hibernou como forma de resistência e por alguns anos foi alienada, aprendeu a gostar de Roberto Carlos e do iê, iê, iê e a não pensar demais, mas nunca deixou pra trás a empatia com o sofrimento alheio e a perspectiva crítica, apesar de todo o medo.

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