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um dia depois do outro - 6

Atualizado: Mar 29

da série a história de Johnny Skai

- por malu baumgarten -


O noticiário da CBC diz que o presidente dos Estados Unidos apanhou o vírus, logo ele, notório negador da doença. São 9h30min da manhã, e Johnny está acordado desde as sete, mas não tem energia para levantar-se. Apanha um dos urinóis de plástico verde e mija pela décima vez, deitado na cama. Telefone na mão, rola a tela do Instagram e examina fotografias enquanto ouve as notícias do dia. Do outro lado do corredor abre-se a porta do quarto de Clara e o gato sai miando, aborrecido pela falta de atenção. A mulher dorme, e Johnny sente falta dela, do corpo morno agarrado às suas costas. Marietta, sua cuidadora de segunda-feira, só chega ao meio-dia. Distraído pelo mundo virtual, ele passa o tempo, ora a compartilhar sua indignação, no Facebook, com os atos de Donald Trump, ora dormitando. Suspira aliviado quando ouve os movimentos de Clara que acorda. São 10h30, e o sol, recém escapado de uma nuvem cinza, filtra-se através das persianas.

Na quarta-feira Johnny acorda com o gato aos pés, sinal de que Clara não está em seu quarto. Ele a ouve mover-se pelo apartamento, afobada, na pressa de sair. Sabe que ela vai ao tribunal ouvir a sentença do sujeito que estuprou sua sobrinha, anos atrás, quando a menina tinha apenas 15 anos. Com dificuldade, move as pernas para fora da cama, espantando o felino, que se declara indignado em altos miados e escapa para a sala. Como sempre, ao trazer o corpo a posição vertical, vem a vontade de urinar e as pernas se esticam rígidas para a frente. Pega o urinol mais vazio e se alivia. Pernas posicionadas, com a mão esquerda agarra-se ao poste ao lado da cama, e com a direita coloca em posição a haste horizontal da engenhoca. Ergue o corpo lentamente, com esforço, e muito devagar gira as pernas enfraquecidas, até jogar-se a meio corpo na cadeira de rodas. Grunhe alto ao tentar acomodar-se, o que faz Clara entrar no quarto, esbaforida, e puxá-lo pelos ombros até que esteja propriamente sentado. “Johnny, pra que grunhir assim,” ela reclama. “Me chama quando precisares de ajuda, é melhor”. E acrescenta: “Precisas te ater à tua humanidade.” Ele, instalado na cadeira, nu exceto pela camiseta, puxa-a para um abraço e diz: “Só quero te desejar boa sorte hoje, na corte.” Abancado no vaso sanitário, ouve fechar-se a porta da rua, apanha o telefone, desbloqueia-o. São oito horas da manhã.

O sol do verão ilumina a tarde de domingo. Lá fora está quente, mas dentro do apartamento o condicionador de ar conserva a temperatura a 22 graus. O quarto de Clara é acarpetado, e Johnny toma um penoso impulso para rolar a cadeira através da porta e no chão lanoso. O gato dorme na poltrona perto da janela, a cara enfiada nas patinhas brancas, orelhas em total abandono. Clara sai do banheiro, sorrindo, e o beija. Os dois riem, e ela dança e faz piruetas à volta dele antes de remover-lhe as roupas, movê-lo da cadeira para a cama, acomodar-lhe as pernas e deitar-se também, o corpo morno agarrado à suas costas. Johnny sente o calor da mulher a inundá-lo e sabe que é feliz. O telefone toca um alarme, lembrando-o de tomar os remédios. São cinco horas da tarde, e a luz do dia brilha dentro e fora do apartamento.

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