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a horta

- por bebê baumgarten -


Estamos em tempos de stand up tragedy. As pequenas tragédias cotidianas invadem nossos dias sem respiro e somos nós os atores no palco. Não há saída, tambores ou chuva na cara pra nos trazer alento. São tantos acontecimentos que se sobrepõem que não temos tempo de digerir. As notícias da política, as famílias dos músicos paulistanos e seus filhos pequenos despejados de suas casas improvisadas embaixo de um viaduto, as mulheres trabalhando em dobro e vulneráveis à violência doméstica que se alastrou como rastilho de pólvora, o machismo disfarçado de afeto que entra porta adentro da nossa casa, descarado e prepotente como ele sabe ser.

E começa a faltar coragem.

Como dizer ao meu pai que ele vai sair da casa dele? Que vai fechar a porta e deixar pra trás o galo, o silêncio, os vizinhos, a proximidade do rio e dos barcos da marina de Itapuã? Falta coragem. Sei da dor dele ao não mais pisar no seu chão, último refúgio que lhe restou, além de um corpo com ossos pesados demais pra carregar. Sei que amanhã eu serei o meu pai, fechando pra sempre a porta do meu velho sobrado sem olhar pra trás. Viver o resto.

Houve um tempo em que inventei uma lua de mel às avessas no fim do amor. Faltava coragem pra terminar. Eu achava que nos partiríamos em pedaços e que aquele quebra-cabeças era tão lindo quanto sólido demais pra se desmanchar. O que eu não sabia é que aquele amor era meu e que eu podia montá-lo em quantos quebra-cabeças eu quisesse ao longo da vida, com peças variadas e coloridas. Eu desconhecia, mas coragem me sobrava. Comprei passagens, tratei de enfeitar a dor, fiquei bonita. Andei pelas ruas de São Paulo exibindo o revés, os últimos dias. Viver o resto. Foi uma experiência triste disfarçada de beleza.

Enceno minhas pequenas tragédias com orgulho. Faço o que posso. Não por superação, mas por sobrevivência. No fim das contas o que sobra de nós é o chão que temos pra pisar, a porta da nossa casa pra abrir e olhar a cor do dia lá fora, o abajur ao lado da cama pra desligar quando o sono vem, o gato pra acomodar sob o cobertor. Esse é o nosso ‘novo respiro’ e nesses dias todo o alento vem de um pequeno sopro de ar, com direito a barulho de chuva e um jazz tocando baixinho na sala.



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