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a terceira onda



- por bebê baumgarten -


Ela me tem inteira.

Em troca dá algum sol e muita sombra nos dias quentes do verão. Filtra os mortos na calçada, porém insiste em trazer o barulho infernal das pessoas e suas traquitanas frenéticas nas ruas. Aos gritos, ela me revela que estou presa, ao mesmo tempo em que estende uma rede pra eu deitar e cantar enquanto olho a copa da árvore de caqui que começa a perder suas primeiras folhas. O outono se avizinha mais uma vez.

Perco eu também um pouco da cor da pele. O olhar vazio mira a parede amarela no vão da escada, com seus quadros imóveis e belos. Subo e desço tantas vezes que já não sei mais o que é passo, perna ou degrau. Sento no degrau grande e lembro a primeira vez que vi a escada, tantos anos atrás. A casa era imensa, misteriosa, tinha quintal com árvores e ovos de páscoa trazidos por coelhos em abril. Havia portas nas salas. Na janela da frente, ainda com o postigo original, aqueles homenzinhos de ferro chumbados nas paredes impediam as venezianas de atingir a cara dos passantes nos dias de ventania.

Ela me tem inteira e eu conserto seu telhado para impedir que a água insistente escorra pelas paredes velhas e se infiltre atrás dos quadros coloridos. Mesmo assim ela não me poupa das sirenes das ambulâncias que cruzam a avenida tantas vezes quanto minhas pernas sobem degraus. Ouvi que o posto de atendimento do bairro é todo dor e caos, e que os mortos nas calçadas são rotina por ali. Médicos e enfermeiros suam nas tardes quentes de verão nos ambientes superlotados e sem refrigeração, suas máscaras N95 sobrepostas umas às outras. O ar refrigerado está reservado aos mortos agora.

Também eu suo pela casa. Guardo o ar refrigerado para o dia que virá. Estou presa, ela diz. A terceira onda não se parece em nada com a primeira. Ano passado, quando comecei a subir degraus, sobrevoava o bairro como pandorga vermelha em mão de menina e avistava as últimas araucárias, repletas de papagaios migratórios. Era permitido sair pelas janelas e até mesmo ter o menino por um breve momento subindo os degraus comigo. Ele cansava no meio da escada, pequeno que é para degraus tão grandes. Como eu, na primeira vez.

Ela me tem dentro. Em raros momentos me oferece o vislumbre de um amor, fogo breve que logo vira cinza. Deito na cama e permaneço assim, atenta às ambulâncias. Sinto falta de ar. O meu e de todos os da terceira onda. Não digo nada. Permaneço em silêncio, olho o pedacinho de céu que me é dado. As traquitanas carregam humanos pra lá e pra cá, espalhando doença e destruição. Percebo o ronco dos motores, uma voz ao longe, o silêncio que insiste em não vir. Ela me tem em seu interior e eu, imóvel, ouço seus barulhos de casa sem portas nas salas, sem coelhos em abril e sem homenzinhos de pedra na parede de fora.


bebê baumgarten / março 2021

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