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a terceira onda - dança

Atualizado: Jul 13




- por bebê baumgarten -


Algo se move. Percebo com a visão periférica. Não faço movimentos bruscos, não mais. Viro lentamente a cabeça que mira a janela fechada, à esquerda. Sei que há vida lá fora, por isso olho para aquele lado, apuro os sentidos e renovo a esperança de voltar a pegar as coisas com as mãos. Meu olhar percorre o espelho de moldura branca, o quadro do Zimbres, a porta alta, feita para um pé direito de casa velha. No outro lado observo os vestidos em movimento. Eles estão fora do armário e dançam. Na frente está o vermelho, de crepe e babado, e logo atrás o novo, esvoaçante, saído do brechó direto para o isolamento da casa. É bonita a dança silenciosa no varal que atravessa o quarto.

Não os julgo, sei a importância dos rituais. Eu mesma tenho dançado enquanto corro nas ruas, entre árvores e ventos. Mantenho os olhos semicerrados e vou corpo adentro no ritmo. Danço guaranias, tangos, cumbias, baladas sangrentas e sambas. Exalto os autores em meus passos e rezo para que sobrevivam e sigam nos dando tanto. Um pouco de mar, a estrela da noite, mães. As alamedas do parque passam ao largo se preparando para o outono. Plátanos repletos de folhas ainda verdes. O moço de idade indefinida que habita o banco próximo ao shopping sobreviveu ali, sentado, alimentando os pombos religiosamente pelas manhãs. Outro dia ele e sua caneta escreviam algo em um pequeno papel acomodado no banco. O corpo torcido em uma posição estranha para escrever. Sua letra caprichosa deve ter ficado entalhada na madeira. Os pássaros em volta aguardando pacientes mais um grão. Eu dançando Refrigerator Mix e seus versos tristes. Reservo a cena. Ele também.

Os humanos da terceira onda mergulham em seus interiores, estranhas águas que não lavam, horas que insistem no dia que fica. Estão sisudos, irritadiços, andam de um lado a outro com pescoços de texto e olho nas telinhas à frente. Mais ainda eu estico meu pescoço para o alto, mantenho o olhar reto. O mundo fora é outro agora. Olhos atentos não bastam. Não mais.

A casa abriga e dói. Moto contínuo. O barulho dos ônibus que levam os bandos é ensurdecedor. Observo da janela as máscaras furtivas indo para queixos e pescoços, os narizes despontando nas caras, cheirando tudo, farejadores. Permaneço. Dentro é vento no varal, fotografia e moldura. O ranger dos degraus nos corredores silenciosos inicia uma pequena sinfonia e a dança dos vestidos atravessa o tempo.


bebê baumgarten / março 2021




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