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de portas e janelas - 3

Atualizado: Jan 15

da série a história de Johny Skai


- por malu baumgarten -



Da porta de casa, mirou os jardins da rua St. Germain. As flores estavam exuberantes naquele início de verão, cores de um mundo perfeito em uma vizinhança impecável. Apertou a mala na mão, andou depressa para o carro, sem olhar para trás. Teve medo da insistência de Tracy, que ela saísse da casa, que lhe pedisse uma vez mais para ficar. Como homem que é, Johnny tem medo das altas emoções, do drama de separar-se, mas sabia que era passado o tempo dos medos. As janelas da morte estavam abertas, e não havia trancas que as pudessem fechar. “É tarde, é tarde”, dizia o coelho de Alice dentro dos pensamentos de Johnny, com suas bochechas afogueadas e seus grandes pés ligeiros. Ele entrou no carro, girou a chave na ignição e deixou para trás vinte e nove anos de casamento, cinco de namoro, três filhos bonitos e uma vida de miséria. À sua frente, a morte sorria.

Havia dois anos, à porta do West Toronto Hospital, Johnny recebera no rosto o sol de abril, num dia pródigo de primavera. Perambulara pelas ruas do Kensington Market, tentando dar sentido às palavras do médico: “O senhor tem uma doença neurológica degenerativa e incurável,” dissera o homem friamente, à queima-roupa, e acrescentara: “Podemos tratar os sintomas, mas o declínio é inevitável.” Mandara-o para casa com um conselho: “Evite buscar informação sobre a doença na internet, só vai assustá-lo.” Em casa dera a notícia à família. “Muito bem, aí estão os nossos planos de aposentadoria, totalmente arruinados,” observara Tracy.

Depois daquele dia, foi proibido de mencionar a doença aos filhos, duas meninas adolescentes e um menino de oito anos, “para não perturbar as crianças.” A mulher também exigiu que mantivesse segredo junto aos vizinhos e amigos, porque não queria sentir-se diminuída em seu meio social. Para Johnny, a vida continuou como se o inimigo não o espreitasse a cada súbita perda de equilíbrio no corpo, a cada queda e tontura. Acabara de assumir novas responsabilidades – sem aumento de salário – na IBM, onde era especialista em tecnologia da informação. Sustentava a família sozinho. Tracy não quisera voltar ao emprego depois do nascimento da segunda filha, mas também não era fã das lides domésticas. Johnny fazia a comida e alimentava os filhos após longas horas de trabalho num ambiente estressante e competitivo. Cuidava do jardim nos fins-de-semana, colocava os latões de lixo na calçada no dia da coleta, escondia-se na lavanderia da casa, no porão, para lavar a roupa e lamber suas feridas. O fato de estar doente não lhe garantiu repouso ou alívio de suas funções, nem em casa, nem no emprego.

Por dois anos viveu assim, como um pombo doente que arrufa as penas para esconder sua fraqueza, os filhos indiferentes, da mulher nem uma palavra de apoio ou ternura. Foi um dia chamado à escola da filha mais velha para um encontro de pais e mestres. Ouvira de Tracy, ao sair de casa a única recomendação: “Conserva a mão no bolso, para esconder o tremor.”

Ao volante de seu carro nesse dia luminoso de junho, no verão abençoado que lhe chega após um longo inverno, Johnny sorri para a morte, aceita a doença. Entende que ela veio para resgatá-lo de uma existência onde a vida não poderia jamais vingar.

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