o baile


da série mundo quebrado - por maíra baumgarten -


Severo corre pelas ruas em um outono triste. O dia está enfarruscado e sombrio, as árvores quase nuas. Castanho e amarelo substituem o verde. O local não é familiar, o que lhe dá um ligeiro toque de desorientação. Janelas e portas passam rápidas por seus olhos e sua consciência é invadida por murmúrios, gritos de crianças, choro e ladridos de cães.

Sente o coração acelerado, o sangue fluindo veloz, a sensação de estranhamento e inquietude o acompanha. É como um arrepio que percorre seu corpo prenunciando algum evento. Percebe as folhas no chão, o mendigo, em um leito improvisado sob uma marquise, que certamente passará frio na noite que se avizinha. Garças e biguás sobrevoam o riacho ao longe, deixando riscos brancos e pretos no ar.

Desacelera. Algo o impede de ver claramente as pessoas na rua, como se elas estivessem esmaecidas, ocultas em uma névoa que as disfarça, na escuridão que vem chegando.

Seu pensamento se perde em meandros de lembranças: a vez em que tentou participar de uma peça de teatro, não foi capaz de incorporar a personagem e acabou por discutir com o diretor que resolveu, era autoritário. As diversas ocasiões nas quais falhou em entender as pessoas, suas idiossincrasias, as diferentes faces de amigos e seus muitos desapontamentos.

Uma mudança o traz de volta. Percebe que entrou em um espaço aberto com muita gente. Sente o coração apertado pois a cena que vê é surreal. Todos estão de máscaras de tipos diversos: gato, lobo, caveira, caseira, hospitalar. Algumas são realmente assustadoras, outras engraçadas ou bonitas. Elas estão por todo lado, a cobrir os olhos dos que não querem ver, os ouvidos que se tornam moucos. Sustentam queixos mudos e testas ardentes. Cobrem as faces ou não, sinistras personagens, negam-se a ficar onde devem, rebelam-se. Coloridas e festivas ocultam rostos atormentados pelo isolamento, pela incerteza e pela des-razão.

Subitamente, irrompe no ar a Nona Sinfonia de Beethoven e inicia-se uma dança que o envolve e arrebata. Os corpos distorcidos se transformam em sombras ameaçadoras que caem sobre ele como a treva do anoitecer. Severo corre como o Coelho Branco da história. É tarde, a vida passou e ele, como Carolina, não viu. A sensação de risco e morte iminente o impulsiona, quer escapar da dança macabra, das vidas desperdiçadas, do mundo quebrado.

Ouve seu nome repetidas vezes e se apressa em direção ao eco distante.


* a foto é de maíra baumgarten/ arte de malu baumgarten

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