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o medo da sede

Atualizado: Mai 16

- por bebê baumgarten -




Seu olhar percorreu a paisagem. Via do lado de fora o mesmo vazio de dentro. O dia amanhecera cinza chumbo e o vento vinha em rajadas, por vezes fazendo-os perder o equilíbrio. Sentados num tronco de árvore à beira do Guaíba, nas proximidades do Museu Iberê Camargo, observavam o rio formar ondas e bater na areia da praia. Por algum tempo estiveram em silêncio, ouvindo apenas o barulho típico e familiar das águas de rio em grossas areias. Fazia frio e o vento cortava os lábios, ressecados dos primeiros dias de inverno. Lúcia tinha o rosto inchado de choro e dor. Mal havia dormido depois da conversa da noite anterior com cheiro e gosto de fim. Não houve briga, o que não lhe trouxe alento. Tudo o que falaram parecera sensato, óbvio e definitivo demais. Seus passos não andariam mais na estrada que viam à frente. Simplesmente isso, pensou.

Não conseguia suportar, no entanto, a imagem da vida sem ele. O samba no boteco do Paulista onde dançavam até alta madrugada e de onde saíam cheios de desejo para desaguar o amor na entrada da casa, ali mesmo na cerâmica vermelha do corredor, as tardes preguiçosas no quarto aos sábados e o sexo interrompido com risadas pelo soar do sino da igreja às cinco horas, as viagens, os abraços na sala, as intermináveis conversas sobre a vida, os furtivos baseados fumados ao som do jazz nas horas de criação ou ócio.

Vicente havia mudado, era fato. Passava horas perdido em seus próprios pensamentos e outras tantas fora de casa. Não raras vezes voltava tropeçando nas próprias pernas, tão bêbado que mal conseguia chegar à cama. Recompunha-se e, por semanas a fio, voltava a ser o sedutor companheiro, cheio de vida, novos poemas, desejo à flor da pele. E tudo voltava a acontecer de novo. Um disco girando para sempre na velha vitrola.

Ali, na beira do rio, os pensamentos seguiam a velocidade das ondas na areia grossa em dia de vento. E doíam. Acertavam os detalhes da separação, como se isso fosse possível naquele dia, naquela paisagem. A ventania fazia redemoinhos com as folhas secas das árvores e algum lixo que porventura passasse por ali. As ondas amarronzadas do rio espelhavam o redemoinho que Lúcia sentia dentro de si. Choravam, apertavam as mãos, se entregavam em abraços. Olhavam os olhos um do outro por longos períodos querendo guardar em suas retinas aquele outro que fora seu.

Poucas palavras havia ainda a dizer e a garganta engasgada, a exaustão e a tristeza invadiam o dia e não permitiam a ela nada além do choro miúdo. Vicente sentia a mesma dor, e sabia o quanto seriam difíceis os primeiros passos sem Lúcia. Mas uma frase, dita por ela mesma na noite anterior, ecoava em sua cabeça e, em voz alta, saiu-lhe inadvertidamente da boca:

─ O medo da sede é a própria sede.

Atravessaram os redemoinhos de folhas em direção ao estacionamento do Museu Iberê onde haviam deixado o carro e partiram.

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