• bebê

o vento se move sobre os amantes

Atualizado: 24 de ago.

- por bebê baumgarten -



Duas imensas horas. Largas, cheias, preenchidas pela violência do amor em agonia. O olhar aberto e brilhante de João voa com raiva certeira e encontra a dor nos olhos de Ada, encolhidos em pranto silencioso. Paralisada na poltrona do teatro, com a cara arregalada de espanto, percorro os caminhos de dentro. Eles me contam que existe amor assim e que amores como esses não são passíveis de fim. Que são o próprio ar e atravessam os dias como pássaros coloridos em céus de chumbo. Não há encerramento para eles. Há que inventar, que doer, que tirar das entranhas toda a dor e arrancar também as belezas, os filmes do Wong Kar-Way, as brisas de praia em dia de verão, as amêndoas e seu cheiro doce.

Duas horas, duas verdades tão distintas habitam o mesmo amor. Na sala do teatro, a luz de cena é o elo entre eles agora. Não há vencedores ou algo a ser vencido. João e Ada, assim como outros humanos que tem a sorte ou a desventura de viver um grande amor, entram de peito aberto, desejo pulsante, e saem combalidos dessa guerra sem pátria. Os corpos se encolhem, as colunas se dobram, a dor entra em seus corpos afiada como tiros na noite. Palavras, gritos, lembranças, apelos pairam no ar e se dissipam no vento que se move sobre os amantes. Não há encerramento possível. Os personagens que se arriscam a viver um amor maior que tudo saem de mão vazias, apenas com a ilusão de que o tempo vá acomodar sob seu generoso tapete tudo o que gira dentro dos corpos em fuga.


Sobre o espetáculo Encerramento do Amor, texto de Pascal Rambert

Com Ada Luana, João Campos, Taís Felippe / Direção Diego Bresani / Foto Henri dos Anjos


67 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Viva