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um lugar no mundo

Atualizado: 9 de Dez de 2020

- por bebê baumgarten -


A soleira da porta segue intacta, mesmo depois de 74 anos. A mesma cerâmica miúda vermelha em forma de losango, ainda tem certa elegância. Um lascado na beira do degrau acusa a idade. A rua, porém, guarda pouco dos velhos tempos. No lugar das casas e jardins, há prédios feios, como caixotes sem árvores e apartamentos minúsculos com gente espremida dentro e janelas de alumínio. Na esquina, a antiga casa se deteriora a olhos vistos. A mais linda do bairro, com seus mistérios e corredores de árvores que lhe deixavam entrever as altas e estreitas janelas com vitrais coloridos, morre a cada dia escondida agora por um tapume. Ao seu lado as amoreiras ainda oferecem frutas frescas e doces aos passantes.

No trajeto até a rua dos mortos, as imensas lojas de materiais de construção, azulejos e louças para banheiros, competem entre si e ornamentam a avenida. A subida, no entanto, segue a mesma com seus cemitérios silenciosos e conservados, ciprestes e araucárias que dão sombra e privacidade aos corpos na eternidade. O portal que separa um bairro de outro está na calma rua que desce tão suave quanto bela, espalhando as flores dos ipês no vento leve da manhã.

O movimento incessante dos ônibus nos corredores e o tráfego pesado dos carros aponta a grande avenida popular no final da alameda. Casas geminadas abrem suas janelas e tapetes são estendidos para secar. Em uma das calçadas, logo adiante da pracinha que faz uma espécie de rotatória para os carros, há uma cama meticulosamente arrumada, com lençol e colcha estendidos. Sobre o travesseiro, um livro preto em bom estado. Nas letras em dourado na brochura, o título Bíblia Sagrada. Aos pés da cama, em uma estante feita com caixotes de madeira, três ou quatro pares de sapatos buscam o sol. Na cabeceira uma pequena estante improvisada contém alguns livros e umas flores de plástico em um pequeno vaso de vidro, com a estampa já esmaecida na lateral.

Poucos passos se ouvem nas calçadas desertas. Uma escola estadual se deteriora vazia, com seus muros altos grafitados e frases infantis. O passeio está repleto de folhas velhas caídas, amontoadas pelos ventos. A lata de lixo em frente a uma servidão tem em seu interior um manequim de mulher sem os braços e a cabeça. Meio corpo está fora da lata e seu pescoço pende solitário em direção aos carros estacionados no meio-fio.

Os cheiros mudam ao atravessar os portais dos bairros. Cafés, bolos, umidade, jardins e flores se misturam ao odor do Arroio Dilúvio, forte e encorpado, um cheiro de morte. À medida que a rua avança numa subida leve e contínua, mudam também as cores, as fachadas e calçadas. Não há camas nesse bairro e os prédios têm jardins e são amplos.

A pequena rua, quase um beco, desemboca em uma pracinha onde o sol se impõe seguro de sua majestade. A obra está a plenos pulmões e os homens de capacetes parecem bonequinhos de playmobil, vistos assim de longe. No centro da praça, bancos coloridos, armações de ferro com folhagens e parreiras, gramados e um parquinho de crianças. Nas folhas das árvores, amarrados com cordões, há envelopes amarelos feitos à mão. Do lado de fora está escrito help e dentro tem cartinhas alertando para os riscos e sinais do suicídio, que anda em níveis alarmantes durante a pandemia.

A água das últimas chuvas tomou conta da estrutura redonda onde o está o escorregador formando uma espécie de lago. As crianças brincam de pescar peixes imaginários com caniços de gravetos. Ela se aproxima do cenário, senta na mureta redonda que circunda o escorregador e pega no chão uma das cartas amarelas caídas da árvore. Começa a dobrar até que se forme um barquinho. Coloca na água e observa o barco fazendo seu caminho, levado pela brisa. Entra com um pé no lago e percebe que a água está em boa temperatura. Põe então o outro pé e sobe no barco, que agora ganhou velocidade com a força de um inesperado vento que começou a soprar do sul. Vento de rebojo, geralmente perigoso para a navegação. Equilibra-se dentro do barco e arruma as velas na direção certa do vento para que ganhe estabilidade. Sobe um pouco a bolina e agarra-se ao leme, apontando para a Ponta da Formiga, que mais parece um pequeno arbusto vista nessa perspectiva tão distante. Ali, em meio ao mato, entre bugios e cobras, certa vez subiu em um mirante, um antigo local, já com suas madeiras apodrecidas e escadas sem fim que levavam ao topo, de onde podia se avistar até Tapes.

Quando tudo está calmo, os ventos empurrando a embarcação e o leme firme e na direção certa, é possível desfrutar o barulho da água no casco e farfalhar do vento na vela. Ela deita na proa e olha o céu disputando beleza com o mastro do barco e suas grandes velas brancas em movimento.

Já é quase noite quando os operários começam a ajeitar seus equipamentos para encerrar o dia de trabalho. Apressam-se em pequenos e ruidosos grupos pela pracinha, vazia de crianças e de sol. Ela está ao lado do escorregador, bem junto ao círculo de concreto onde estava formado o laguinho, já seco pelo calor do dia. Seu corpo está metade para dentro do círculo. O pescoço pende em direção ao barquinho de papel encalhado na areia.

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